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sábado, 6 de março de 2010

Vinho, poesia, ou virtude



É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.
E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

Charles Baudelaire

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Um Poema de Amor




Não sei onde estás, se falas
ou se apenas olhas o horizonte,
que pode ser apenas o de uma
parede de quarto. Mas sei que
uma sombra se demora contigo,
quando me pergunto onde estás:
uma inquietação que atravessa
o espaço entre mim e ti, e
te rouba as certezas de hoje,
como a mim me dá este poema.

Nuno Júdice in "O Movimento do mundo"

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Não posso adiar o coração



Não posso adiar o amor para outro século 
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ópio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa   

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Não sei como dizer-te



Não sei como dizer que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias
dentro de mim te procuram.
... ... ...

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e o abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

Herberto Helder - excerto do poema "Tríptico"


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

E por vezes...

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
 
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
 
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
 
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
David Mourão-Ferreira

sábado, 8 de agosto de 2009

Morre lentamente


Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê, quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
... ...
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is"
em detrimento de um redemoinho de emoções
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
... ...

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida
fugir dos conselhos sensatos.
... ...


Morre lentamente...


Pablo Neruda

sábado, 1 de agosto de 2009

Photo by Pi
"...e sempre,
no fundo,
uma memória,
com sua saudade,
com sua esperança,
e um sorriso de magia à janela do mundo,
o que desejamos batendo à porta do que somos..."



Fernando Pessoa - in Livro do Desassossego

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Mil estrelas


Mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
Eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
Todas as estrelas que existem.


José Luis Peixoto

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pelo sonho


Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos, pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos. Basta a esperança
naquilo que talvez não teremos.
Basta que a alma demos, com a mesma alegria,
ao que desconhecemos e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos.


Sebastião da Gama

Sim eu sonho, eu vou.
Estou sempre de partida.
Eu sonho, Eu sou.

sábado, 18 de julho de 2009

Dois amantes


Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.


Pablo Neruda

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A boca


A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo
cintila,
a boca espera
(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)
espera o ardor
do vento
para ser ave,
e cantar.

Eugénio de Andrade

sábado, 4 de julho de 2009

E ao anoitecer


E ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume e
na fria lava da noite ensinas ao corpo a paciência o amor
o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto

terça-feira, 30 de junho de 2009

Não fora o mar


Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Fernanda de Castro

terça-feira, 23 de junho de 2009

um dia quando a ternura for a única regra da manhã



um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o príncipio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.


José Luís Peixoto, in A criança em ruínas

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Aquela praia



De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia de Mello Breyner

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Que somos nós?


Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.

Álvaro de Campos


sábado, 30 de maio de 2009

A noite na Ilha


Dormi contigo toda a noite
Junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono
Entre o fogo e a água.

Os nossos sonos uniram-se
Talvez muito tarde
No alto ou no fundo,
Em cima como ramos que um mesmo vento agita,
Em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
...
...
Dormi contigo
E, ao acordar, tua boca
Saída do teu sono,
Trouxe-me o sabor da terra,
Da água do mar, das algas,
Do âmago da tua vida,
E recebi teu beijo,
Molhado pela aurora,
Como se me viesse
Do mar que nos cerca.

Pablo Neruda

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Silogismos


"A minha filha perguntou-me o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.

Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito são diferentes: é que ela perguntou depois o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos paralelos, em conjunções e disjunções de espaço e tempo, nem sequer em morte.


A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão seguinte: o que é morrer?
Por isso respondi que para sempre era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.


(No fim do jogo todo, disse-me que amanhã queria estar comigo para a vida inteira)"

Ana Luísa Amaral

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Agarrei no ar


Agarrei no ar um véu esmaecido de azul,
igual ao azul do céu iluminado pela lua.
Eu passo a vida a sonhar iluminado pela lua.
Rui Cinatti


E não é pelo sonho que vivemos?
BOM FIM DE SEMAAANAAA!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Um pouco de nós

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”
Antoine de Saint-Exupery.